Lembrava-se de ter recolhido munições. Havia uma armadura, grande, forte e trabalhada. Sabia que tinha escondido uma adaga algures e que não tinha esquecido o arco. Sabia defender-se, não era a sua primeira batalha. A aljava pesava-lhe no ombro, cheia de flechas por usar. Algumas tinha arrancado do seu próprio corpo, em batalhas anteriores, e levava-as consigo, para recordar o que vencera.
O caminho começara numa floresta densa, misteriosamente bela. O vento era forte, as árvores eram atiradas violentamente, numa dança assustadora. Não se lembrava da última vez que sentira tanto medo. As mãos tremiam, o sangue parecia ter paralisado nas veias e, no entanto, o seu coração nunca batera com tanta força contra o peito. Todos os seus sentidos se alarmavam, antecipando algo grande, prestes a acontecer. O arrepio que lhe percorria as costas, a fraqueza que sentia nas pernas, o constante pulsar dos tímpanos, ao ritmo do coração...
Inspirou fundo, e avançou.
A floresta era escura. Os pequenos raios de luz que escapavam ao dia cinzento, espreitavam entre as árvores como pequenos pirilampos. Esperou que os seus olhos se adaptassem à escuridão e deu um passo em frente, e depois outro. Deu por si a embrenhar-se no âmago da escura floresta, sem mantimentos, sem direcção, sem agasalhos para as noites frias. Apenas sabia, sentia. Sentia o futuro a aproximar-se a cada passo que dava e a pele eriçava-se com a sensação de que já tinha estado ali antes. Num sonho, talvez...
Os dias eram para caminhar, as noites eram passadas a medo. Sabia o perigo que corria, e precavia-se contra o mundo físico, mas não sabia como afastar os sonhos. Vívidos, ambiciosos... Perigosos.
Sem saber bem como, perdeu a aljava. Se não achasse que imaginava, diria que lha tinham roubado, durante a noite. E sem flechas, de que servia, realmente, o arco? Pousou-o junto a uma árvore robusta.
Começou a perceber a floresta, a conhecer as suas curvas, os caminhos escondidos. Oh, sabia que nunca seria capaz de desvendar todos os mistérios de algo tão profundo. Mas cada passo a fazia embrenhar-se mais naquele conhecimento desconhecido, num transe do qual não sabia como voltar. Sabia que queria mais. Saber mais, descobrir mais, chegar ao coração da floresta, encontrar o tesouro com que sonhava todas as noites.
Conseguia ouvir a água a poucos metros. Água que contava histórias, que se interpunha entre ela e o seu destino. Aproximou-se de um rio violento, com correntes e profundidade, negro como o breu do céu que a cobria. Subiu, junto à margem. Teria de existir um ponto de passagem, um ponto em que fosse mais fácil chegar ao outro lado. À medida que andava, ouvia o rio contar a história da floresta. Como se cada gota de água fosse uma lágrima de mágoa e desamor.
Despiu a armadura, era pesada e, com certeza, afogar-se-ia para a manter. Deixou as botas para trás. Sentiu a roupa fina junto ao corpo, os pés descalços em contacto com a terra, o cabelo que rodopiava e lhe toldava a visão, e mergulhou.
Sentiu a água gélida agarrar-lhe os tornozelos, enquanto batalhava por se manter à tona. A corrente era forte e arremessava-lhe o corpo em direcção à foz, como se quisesse expulsá-la da floresta, como se insistisse em fazer dela marioneta e ditar-lhe o destino.
Enquanto lutava contra o rio, agarrando rochas, esperneando contra o frio que a assolava, ouvia o vento sussurrar-lhe que desistisse. Que talvez não fosse este o seu destino. Que podia procurar um destino mais fácil de alcançar.
Mas ela era teimosa. Tudo o que valera a pena, na sua vida, custara. Por vezes, um corpo cravejado de feridas e sonhos tenebrosos. Outras vezes, apenas uns arranhões e a marca da traição.
Não ia deixar que este rio, contador de histórias, a afastasse. Enquanto acreditasse no seu objectivo, remaria contra a corrente.
Chegou à outra margem esbaforida, e deitou-se na relva. A respiração era ofegante e o corpo tremia com o frio e o cansaço. Enroscou-se em si mesma, tentando revestir-se do calor que parecia irradiar do seu peito. Sentia a roupa molhada contra a pele, os músculos açoitados e marcados.
E se aquela primeira provação fosse a menor de todas? Teria fôlego, ou mesmo vontade de ultrapassar as seguintes. Valeria a pena? Teria o rio razão?
O dia amanheceu com nuvens dispersas e tímidos raios de sol que conseguiam ter, agora, um pouco mais de força ao empurrar as folhas das densas árvores.
Algo a chamava e continuou a caminhar. Descalça, desprotegida, só.
Sentia cada pedra debaixo dos pés, como uma faca que dilacera a vontade de continuar. Havia de ganhar calo.
A floresta manteve-se silenciosa. O vento cessara, e o rio ficara para trás, e parecia-lhe que o caminho entre as árvores adensara, tornando-se mais estreito. Havia pequenas clareiras pelo caminho e, por vários dias, parecera que a floresta lhe fechara as portas. Para além dos espaços em que deixavam o sol entrar, as árvores mantinham-se imponentes, caladas.
Os sonhos eram cada vez menos reais, como se a cabeça quisesse pregar-lhe partidas. Mas o coração continuava a bater com a força de um tambor.
A experiência dizia-lhe para o seguir. O cérebro mente, o coração não. Enquanto o seu peito continuasse a ecoar nos seus ouvidos, não desistiria.
O medo era cada vez maior. Tinha investido meses nesta demanda, tinha-se entregado de corpo e alma.
Sim, avisaram-na de que o risco seria avassalador, de que não podia esperar um caminho fácil e que, com tantos tesouros a ser descobertos, ela havia escolhido o mais difícil de perseguir.
Muitos tentaram demovê-la de tão louca ideia.
Outros incentivaram-na a ir, mas sem se empenhar verdadeiramente, pois colocar o coração neste tipo de demanda era um risco demasiado grande. Sem empenho, poderia desistir a tempo, sem sair ferida, quando a situação se tornasse difícil.
Mas ela optara pelo risco. Recusava-se a viver a vida fácil e organizada, a vida ponderada e medida a cada momento, a vida onde o vento não sopra e o sol brilha a meia haste todos os dias.
Ela queria mais. Queria tudo. Queria o risco de viver. O risco dos dias de chuva e trovoada, e o risco dos dias em que o sol brilha com todas as forças.
Ela não queria ficar adormecida em si mesma, presa a um passado de batalhas perdidas, dormente aos sinais do próprio coração.
Ela sabia que corria o risco de retornar a casa, sozinha, de mãos vazias, ferida, exausta, derrotada.
Mas, o que a maioria esquece é que este, é também o risco de chegar com o maior dos tesouros na mão, renovada, sorridente, feliz...
E esse era um risco que ela se dispunha a correr.
A floresta parecia não acabar, e sabia que começava a divagar sobre tudo o que lhe haviam dito. Sobre todos os conselhos, todos os avisos e recomendações de cautela. Havia momentos em que duvidava de si mesma, ou sequer se o tesouro que procurava estaria nesta tão difícil, tão cerrada mata.
Obrigava-se a mexer um pé após o outro, sabia que estava a ficar cansada, com fome e frio.
A luz pareceu acordá-la. Correu de encontro ao que parecia ser uma descoberta. Havia luz! Muita luz! E se tivesse chegado? Estaria ali o seu objectivo? Correu mais rápido, acelerando até sentir a respiração faltar-lhe. Parou, estarrecida.
O arco de folhas e ramos, convidava-a a sair da floresta, a voltar à civilização. Enquanto recuperava o fôlego, olhou atentamente para fora da floresta. Ao longe via estradas de terra batida e no topo da colina, a quilómetros, conseguia vislumbrar a torre de uma qualquer igreja.
Pareceu-lhe cruel.
Uma bifurcação, uma escolha. Podia desistir, voltar. Podia retomar a sua vida com poucos arranhões. E quão tentador isso era, no momento em que sentia que a floresta não lhe ia dar nada em troca.
Nada a preparara para aquele momento, para decidir...
Enfrentou o negrume do caminho que se embrenhava para dentro do arvoredo. O coração aqueceu-lhe o peito. Deu um passo em frente.

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