Quando ele estendeu a mão, convidando para dançar, ela hesitou. Não era versada na arte da dança, e da última vez que arriscara dançar livremente com alguém, tinha chegado a casa com dores horríveis nos pés, que a tinham incapacitado durante dias.
Disse-lhe: "eu não danço". Ao que ele sorriu, divertido, e perguntou porquê. Ela ponderou a sua resposta e decidiu responder honestamente, humildemente.
Ele olhava-a fixamente, enquanto ela se atrapalhava com a explicação e lhe dizia que da última vez que dançara, fora pisada com demasiada força. E pensava no quão bonita ela estava, no seu vestido verde, curto e feminino.
Surpreendeu-a quando, após a sua explicação ele a puxou de encontro a si e sussurrou "eu também tenho nódoas negras", num tom de voz brincalhão e doce. Pegou novamente na mão dela e beijou-a ao de leve, como o pousar de uma borboleta, sentindo-a tremer.
"Confias em mim?" perguntou e ela, ainda hesitante, caminhou com ele até à pista de dança.
E sentiu a sala fechar-se à sua volta, como se apenas os dois existissem no mundo. Como se a noite fosse deles, e o tempo parasse para se curvar diante da sua troca de olhares.
E, quando ele colocou a mão na sua cintura e a conduziu num ritmo lento e compassado, ela sentiu-se flutuar. Aos poucos, sentiu os seus pés a acompanharem os dele, cada vez mais próximos, cada vez mais fundidos um no outro.
Ele sentia-a quente junto a si, enquanto pensava que, também ele, tinha dificuldades em dançar. Os seus passos eram bastante rígidos, planeados e, por vezes, tornavam a dança um pouco estranha, como se o seu corpo não lhe pertencesse. Sentia-a descontrair junto a si. E enquanto as suas mãos a apertavam e puxavam para perto, os seus pés tornavam-se mais mecânicos, com medo que um deles pisasse o outro, comprovando a teoria de que não eram um bom par.
Ela olhou-o nos olhos e sentiu os seus medos, as suas inseguranças. O medo de ter dado a entender ser melhor dançarino do que era, a vontade de aprender, com ela, a dançar melhor. E beijou-o. Partilhando os medos que eram também os seus, embora os escondesse em camadas de confiança e carinho. Deixou o tempo parar, o mundo rodar à sua volta. Naquele momento, naquela sala, nada mais importava do que as mãos dele a segurá-la e os lábios dele tocando os dela, como um porto seguro onde ela se podia aninhar.
E, no canto da sala, sentada a observar, estava a anciã que sorria. Lembrava-se da altura em que, também ela fora jovem, cheia de medos, cheia de sonhos sem se atrever a enunciá-los, não fossem eles fugir, galopando nas suas palavras. E observava os passos tímidos, dados a medo, daquela dança cuidadosa entre duas pessoas com medo de se magoar, de cair ou de dar o passo errado e pisar o outro.
Riu-se, interiormente, sabendo que, na dança, a descontracção vinha com o tempo, com prática, com alguma dor, inevitavelmente, e com a segurança da pessoa com quem se arrisca dançar.
E olhando para aquele com quem as suas mãos, ainda hoje, tremiam e se entrelaçavam, relembrou os seus próprios passos de dança, as vezes que caiu, as vezes em que foi pisada, e o momento em que finalmente tinha compreendido que para dançar só eram precisas três coisas: sonhos, amor e um bom par.
