terça-feira, 27 de novembro de 2012

Amigos

Há coisas na vida das quais não estamos dispostos a abrir mão. Nunca. Coisas tão importantes que fazem de nós meras marionetas no teatro a que chamamos vida.
De entre todas essas coisas, tão importantes, escolho a amizade. Escolho-a acima do amor, acima da família. Escolho-a porque sei que é um porto seguro, um abrigo, o derradeiro refúgio para um coração despedaçado. Escolho-a porque sei que nunca me faltará, porque é o que me faz viver e respirar a cada dia.
De tudo aquilo que nunca deitaria fora, escolho a amizade. Porque me dá força e alento quando preciso. Porque me faz ser melhor a cada dia. Porque me faz ser eu mesma. Mesmo que ser eu mesma signifique más escolhas, más decisões. Mesmo que ser eu mesma não seja digno.
É o que me faz continuar a andar a cada dia, é o que me faz forte e fraca ao mesmo tempo, é o que me dá esperança de tudo o que a vida tem de melhor.
É algo que nunca desperdiçaria. Nem por um grande amor, nem por um grande ódio. 
Porque amigo é amigo. Independentemente de quantas cicatrizes nos provocou, independentemente de nos poder ter magoado mais do que alguma vez imaginámos, amigo é aquela palavra que não se deita fora, que não se põe de lado. Porque uma vez reconhecidos os erros, amigo é a pessoa que temos de apoiar, que temos de ajudar e que temos de preservar.
É a pessoa que queremos ver feliz a qualquer custo, e cuja tristeza nos deita abaixo como um castelo de cartas soprado pelo vento. É a pessoa que nos entende, mais do que qualquer outra, e que se faz presente em todos os momentos. 
Amigo é alguém que provoca em nós um puzzle intrincado de sentimentos, é aquele com quem podemos discutir ideias e ter opiniões obtusas, pois cada discussão, cada opinião contrária é um momento de crescimento. É a pessoa com quem nos podemos zangar uma dúzia de vezes, porque no fim, amigo é amigo e precisamos dele. É quem perdoamos quantas vezes for necessário e quem nos dá os melhores conselhos. É quem nos conhece melhor que nós mesmos e sabe o que dizer em cada instante de incertezas.
É alguém por quem facilmente daríamos a nossa vida.
Porquê?
Porque amizade é amor incondicional.

quarta-feira, 21 de novembro de 2012

A razão

Precisamos dos outros. Por algum motivo, há pessoas das quais precisamos mais, e outras menos. Há uma razão, pela qual distinguimos amigos de melhores amigos, de conhecidos e colegas. Há motivos para não querer que alguém se afaste de nós, mesmo que deva.
Há motivos para querer algo diferente do que se merece. Porque somos humanos e tomamos decisões erradas, ou fazemos maus juízos de valor. Porque nem sempre temos cuidado com os sentimentos dos outros e partimo-los em mil pedaços que achamos ser um erro irremediável.
Más atitudes não fazem de nós más pessoas. E às vezes, mesmo não merecendo alguém, mesmo não merecendo perdão, precisamos. Porque esse alguém é parte do que somos, ou simplesmente porque somos humildes o suficiente para admitir que errámos e mostrar arrependimento. Talvez não mereçamos uma segunda hipótese, ou mesmo uma terceira, mas precisamos dela como se nos fosse fazer sobreviver à tempestade.
Nem sempre merecemos o que pedimos. Mas, às vezes, não faz mal tentar pedir. Pedir para não nos deixarem por muito que mereçamos.
Há uma razão para não querermos deitar fora o que temos, querermos preservá-lo a todo o custo. Há uma razão para tentar. Porque tentar é tudo, e pode fazer a diferença.
E se não sentirmos essa razão no ínfimo de nós... Se nem sequer quisermos tentar... Bem, aí nem faz mal perder o que perdemos... Talvez, no fim de contas, não fosse assim tão importante.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Decisões

Eventualmente, chegamos a um momento em que as decisões têm de ser tomadas.
Sim ou não. Quero ou não quero. Sou ou não sou...


Nesse momento o mundo parece desabar. Todos os pequenos factores que influenciam, mesmo que ligeiramente, a nossa vida parecem assaltar-nos a mente, com mil armas prontas a disparar caso escolhamos erradamente.
O que ganhamos com essa decisão? Valerá a pena tomá-la? Não estaremos suficientemente confortáveis com aquilo que já temos, mesmo que incompleto?
Mas pior ainda, aquilo que, em qualquer momento, todos pensamos... o que perdemos se a tomarmos? Será assim tão importante arriscar? E se for errado? Se perdermos o que tínhamos?
Se errarmos, nada nos garante que consigamos voltar atrás... que consigamos desfazer essa decisão.
Talvez devêssemos perguntar: o que perdemos se não a tomarmos? Estaremos a perder um pedaço de nós? A recostar-nos e a escolher a opção fácil? Talvez. Talvez estejamos a perder um pouco de dignidade a cada momento, ou simplesmente a afastar-nos de nós mesmos.
E pensamos: porquê escolher? Porquê arriscar? Porquê dar um passo à frente e assumir o que queremos? Porquê pedir mais do que o que já se tem? Porquê sequer tentar?
E se nem o quisermos realmente? E se o nosso objectivo se afasta, inversamente ao pretendido?

E se conseguirmos? E se tomarmos a decisão? Se nos enfrentarmos a nós mesmos e sairmos da nossa zona de conforto? Se formos capazes de pedir o que queremos e esperar fervorosamente uma resposta assertiva?

Mas, ah!, e se for tarde demais?

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

E se?

E se eu quiser ser óbvia?
Se quiser gritar o que sinto? Se quiser explodir de raiva e deixar-me levar? Se quiser ser estupidamente irresponsável e testar a profundeza do rio com ambos os pés?
E se me apetecer praguejar aos quatro ventos, gritar até não poder mais? Se me apetecer ser parva e deitar tudo a perder?
E se me estiver nas tintas para se o mundo compreende? Se me fechar em mim mesma e não ligar ao que os outros pensam, ou dizem, ou fazem?
Se quiser tentar?
O que há de tão importante, nesta vida, que me impeça de ser eu mesma?
Se quiser voltar atrás e deixar-me levar pela fúria? E se me apetecer estar triste e chorar o rio Douro num dia?
E se me sentir excluida, fraca, fora de mim mesma? Se sentir que o mundo gira sem mim e que não quero mais fazer parte daquilo que conquistei?
E se gostar disso? Se adorar a liberdade de quem não se prende?
E se decidir voltar a ser eu?
Se descobrir que o meu grande problema é o coração e não a mente?
E que grande problema seria esse!
Se me apetecer parar e não escolher? Se quiser ficar num lugar seguro?
E se decidir que não vale a pena? Que lutar por coisas perdidas não faz sentido? E se as coisas perdidas me custarem a perder?
E se decidir ser livre?
E se, bem no fundo, souber o que quero? E se me arrependo?
Bem, essa é uma questão completamente diferente...

domingo, 29 de julho de 2012

O outro mundo

Quando a imaginação voa tudo parece diferente... Mais brilhante, com mais cor! Tudo nos parece mais do que realmente é. Palavras tornam-se convites, gestos sem significado inundam-se de magia e envolvem-nos em momentos que, podendo ser perfeitamente normais, nos parecem saídos de uma história de encantar. Cada olhar, cada aperto no peito significa algo diferente. Tão diferente que não ousamos tentar definir... Porque as definições são racionais, e custa sair do mundo da ilusão, quando existem estes espaços entre ele e o mundo real, e tudo parece tão tangível, tão perto.
O mundo da ilusão, das fantasias e sonhos, é um mundo traiçoeiro, perigoso até! Leva-nos aonde queremos estar e não nos deixa tomar o caminho contrário. Cada estrada que percorremos nesse mundo se desvanece para trás de nós, e não temos outro remédio senão continuar.. sempre em frente. Sempre com cenários novos e aliciantes, como se tivessem sido concebidos de acordo com todas as nossas necessidades e tentações. E que vis são esses caminhos!
E então, quando percebemos que estivemos sempre a sonhar acordados, esbarramos com o mundo real. Cheio de desilusões, de medos e dúvidas constantes. É esse tal mundo que por vezes é tão mau, que nos obriga a refugiar nesse nosso mundo idílico, onde as coisas (bem, a maioria delas) acontece como prevemos. Cada conversa, cada gesto é meticulosamente planeado, apenas para sair frustrado quando de regresso ao mundo real. E cada beijo imaginado, cada palavra sussurrada, são esquecidos, como folhas lançadas ao vento...
Pergunto-me de onde surgirá este mundo belo e simultaneamente assustador. Que faz de letras de músicas o nosso refúgio e que faz da mente um lugar de guerrilhas e material bélico pronto a ser utilizado contra nós mesmos.
No mundo real, não se arrisca. Tudo é demasiado precioso para que seja posto à prova ou possa ser perdido. Talvez por isso façamos tanto uso da nossa imaginação. Lá, nada se perde, porque lá é a nossa mente que comanda, e tem cada traço do que vai acontecer planeado ao pormenor, porque esse mundo é previsível, e o real, não.

domingo, 20 de maio de 2012

Guardar agulhas

Às vezes sinto que não sei o que sinto. 
Talvez não faça sentido, ou talvez seja apenas mais um daqueles lugares comuns. Não sei. A vida complica o que podia ser simples, dá voltas, torce e espreme, vira-nos de pernas para o ar e volta a rodopiar-nos como se mais não passássemos do que uma leve folha, cujo destino é decidido pelo vento.
Há apertos no coração, e vontades de desaparecer, há míriades de sentimentos que se misturam como se estivéssemos a bater um bolo, e dolorosas expectativas que caem, muitas vezes no vazio. Há confusões. Gigantescos turbilhões de pensamentos que duvidamos terem sequer alguma razão lógica e racional. Há também saltos de alegria, e momentos em que o peito transborda. Há momentos de lágrimas raivosas e curiosidade aguçada... No fim, o que resta são as dúvidas. Dúvidas imensas de como foi e de como poderia ter sido... Os "e se's?", "porquês" e os "será?" que atormentam cada noite, cada dia. Entranham-se na mente como agulhas, picam e aleijam durante uns dias. Por vezes soltam-se, e pensamos tê-las perdido no caminho, voltando aos dias, ditos normais, em que nos contentamos com o que temos. Mas voltam. Sempre mais finas e pontiagudas, com teorias e cenários mirabolantes que surgem na nossa cabeça sem pedir permissão, e que arrancam todas as certezas que possam restar, transformando-as em frágeis memórias do que costumava ser. E os "e se's?" vencem a corrida, e posicionam-se em locais de boa visibilidade, para que não passem despercebidos, para nos fazer pensar em tudo, todas as possibilidades... mesmo aquelas que sabemos improváveis, ou mesmo impossíveis. Dançam na nossa cara, rindo e fazendo pouco da pouca sanidade que nos resta.
E a felicidade vai e vem... vai e vem. Por meses e meses a fio, como o desenrolar intrincado de um novelo, acabado de sair das garras de um gato. E por mais que vá e venha, nem sempre é completa, cheia. Por vezes, é mirrada e cheia de perguntas, uma felicidade maltratada pela mente e coração, que pecam por quererem demais.
A música é, sem dúvida, um factor despoletante. Pela música se ama, pela música se chora e se passam os momentos mais tristes, e por ela passam as maiores alegrias. Cada palavra que vá de encontro ao que se sente é como um pequeno milagre, um saber que não se está sozinho nesta terrível demanda que é a vida. Um saber triste de que alguém, mesmo que involuntariamente, pensou nestas dúvidas, nestes "e se's?", "porquês" e "será?".
E o que fazemos é esperar. Esperar por algo, ou alguém que nos diga uma palavra, uma frase, que nos faça agir... Porque somos cobardes. Não agimos com base nos "e se's?", pois não? O que garante, a qualquer um de nós, estar a tomar a atitude certa? Não sabendo, fechamo-nos na nossa concha. Há muito a ganhar, mas também imenso a perder, caso estejamos errados. E não nos podemos dar a esse luxo. Por isso, vamos deixando a vida passar por nós, a rir-se, com as suas agulhas perfurantes, sabendo que o nosso destino está nas suas mãos, porque somos demasiado medrosos para o tomar nas nossas. É demasiada a responsabilidade e é tamanho o medo...
No fim do dia, tudo se resume ao mesmo de sempre. Desabafar para uma parede vazia, ou uma folha em branco, e esperar que, como que por magia, alguém tome a atitude primeiro, alguém arrisque. Esperar que a amiga guarde o segredo, mas secretamente desejar que o revele (só se no final o resultado for favorável, claro), para não termos de ser nós a fazê-lo, porque espetar agulhas em nós mesmos, pode ser ainda mais doloroso...

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2012

Assuntos de Sapataria

Tenho vindo a pensar nas mais variadas coisas. As minhas divagações vão desde o tempo que vai estar amanhã, até a letras de músicas e questões muito maiores do que eu, a que, simplesmente, não sei como responder. Até que, ontem, deitada e enrolada nos lençóis, já prestes a adormecer bem quentinha, num dia de Inverno, tive o que me pareceu uma epifania momentânea. Geralmente, tendo a esquecer tudo aquilo a que me proponho ou penso naqueles breves minutos entre o adormecer e o dormir, mas por esta vez, talvez por ser uma questão importante, voltou-me à ideia a brilhante conclusão: "Amigos são como pares de sapatos."
Ora!, pensará o leitor menos imaginativo, "Esta endoideceu!".
Pois passo então a explicar:
Comprei um par de sapatilhas novas, daquelas um pouco mais rígidas. Sucede, portanto, que de cada vez que ando com elas, ficam a doer-me os pés, desde os dedos, que se sentem apertados, até àquela conhecida "parte de trás do tornozelo" onde se formam as mais variadas coisas, aquando do uso de sapatos novos, desde a vermelhidão exagerada, às bolhas incomodativas. No entanto, se queremos que o sapato alargue, é necessário fazer um esforço por andar com ele.
Pois, estes são os novos amigos que vamos fazendo. Aqueles que ainda não conhecemos, a quem ainda não nos habituámos, por não se terem, ainda, moldado à nossa forma de ser e pensar. E que, por isso, às vezes magoam sem se aperceberem, ou formam calos e resistências da nossa parte.
Agora, pensem naqueles sapatos velhos, aqueles que foram usados durante anos e anos, que já se adaptaram de tal maneira ao formato do pé que o estranho seria outra pessoa tentar calçá-los. Sim, esses sapatos que são do mais confortável que há! São os que nos ficam melhor, e que, em geral, já dão com qualquer tipo de roupa.
Ora, esses são os velhos amigos, aqueles cuja amizade foi crescendo ao longo do tempo, e com os quais nos identificamos mais do que com quaisquer outros, porque se moldam a nós de forma perfeita, e porque sabemos poder contar com eles quando os sapatos novos nos magoam...
Mas, eventualmente, os novos sapatos tornam-se velhos, e são substituidos por "outros novos sapatos", e os velhos, ah! os bons e velhos sapatos, alguns, inevitavelmente, têm de ser deitados fora, talvez aproveitados para usar por casa, mas há outros, aqueles que gostamos mais, que ficam guardados no armário. Não se permite à mãe que os deite fora, mesmo que estejam inutilizáveis, porque esses, esses foram os sapatos com mais significado, com mais vivências, e com os quais passámos os melhores momentos das nossas vidas!