quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Limbo

O pé dela mexia, inquieto, dentro do sapato e os dedos cravavam-se no sofá. A mente cavalgava por entre cenários mirabolantes e maravilhosamente assustadores, galopando entre as prateleiras de possibilidades que o momento trazia.

A mão dele pousou sobre a sua, a medo, delicadamente. Sentiu-se enrubescer e olhou-o. Os olhos dele fitavam-na, como se não conseguisse prestar atenção ao filme que passava no ecrã. Olhos meigos, com mil gradações de cor que a fascinavam e hipnotizavam.
Aqueles três segundos, pareceram horas. Sentia a pele aquecer e o rubor no rosto à medida que os lábios dele se aproximavam dos seus.

Quando os lábios se tocaram, sentiu-o doce, quente. E o que começou a medo, transformou-se numa miríade de sensações, em que as bocas exigiam e as línguas batalhavam, enquanto mãos exploravam com uma ânsia que não sabiam possuir.
A boca dela percorria os caminhos do pescoço dele, e sentia o pulsar do sangue sob a pele morena, enquanto os dedos se debatiam com os botões da camisa e o expunham, pele quente, peito ofegante. O corpo dele respondia a cada toque urgente, cada roçar de dentes junto às orelhas, enquanto ela semeava beijos descendentes até ao seu ventre.
Sentia as mãos dele puxar-lhe a camisola, ansiosas e incrivelmente ternas. Cada toque explodia na sua pele, cada beijo, cuidadosamente plantado, lhe entorpecia os sentidos. Beijava-o sofregamente e queria mais, sempre mais, à medida que o sentia descer, morder e provar cada recanto de si.

Os corpos entrelaçavam-se num jogo de tacto, som e ritmo, e ela deliciava-se com a pele salgada dele enquanto descobriam cada traço, cada forma, cada sabor. E à medida que avançavam, sentia a garganta emitir sons que não permitira, guturais, crus, que revelavam tudo o que estava a sentir e intensificavam quando ele se demorava em pontos estratégicos do corpo dela. Cada toque dele sobre o seu ventre a fazia gemer, e a forma como ele movia os dedos em si, fazia com que as suas pernas tremessem e não lhe obedecessem.
Nada mais existia naquele momento, do que aquele abraço, os olhos dele cravados nela, e as mãos dele que lhe iluminavam cada terminal nervoso em explosões de electricidade, brincando numa dança de toca e foge constante.

Sentiu a mão dele agarrar as dela, e antes que se apercebesse, sentiu os dois pulsos firmemente presos acima da cabeça, enquanto com a mão livre, ele a explorava sem piedade, demoradamente, provocando-lhe sensações, de um prazer doloroso, a que não conseguia escapar, completamente vulnerável, entregue a ele. A boca dele descia e cobria-a com um calor delicioso, enquanto ela se contorcia de prazer sob a sua língua.

Ouvia um som, distante, repetitivo. Ignorou-o.
Sentia o calor dele, o seu próprio corpo irrequieto ansioso por mais. Sentia o seu cérebro e todos os seus poros implorar por mais.

O som regressou. 

Mais...

Cada vez mais forte.

Mais...

Cada vez mais intrometido. 

Mais.

Até ser um "pi" constante que marcava as 7h30.

...

Acordou.
Tinha de ir trabalhar.

domingo, 15 de setembro de 2019

Entre Fogo e Pedras

E ali estava. Aquela pequena chama. Fraca, inconstante e que poderia a qualquer momento ser apagada por uma brisa. No entanto, a alegria reinava.
Há meses que não conseguia fazer fogo. Quando fazia faísca queimava-se e retraía-se e, por vezes, não tinha sequer força para raspar dois seixos um no outro as vezes suficientes para que o fogo surgisse.
Mas estava ali. O pequeno ramo, crepitante, que os olhos dela refectiam, húmidos.
Era um sinal de que as coisas estavam, lentamente a voltar ao normal. E se conseguira criar esta chama, talvez conseguisse criar outras.
Ou alimentá-la com ramos e folhas secas, para não deixar o lume extinguir-se.
Sentiu o calor, e o sorriso formou-se mais uma vez.
Teria de decidir a melhor forma de continuar o seu caminho. A pequena gruta onde se abrigara protegera-a da intempérie, e naquela terra nunca fazia muito frio. A temperatura era amena, naquela noite de  Janeiro.
A chama, frágil, parecia devolver-lhe o olhar, hipnotizando-a. Tinha esquecido o quão poderosa podia ser uma pequena luz.
Recolheu alguns paus e folhas outonais que encontrou espalhados pela gruta.
Fazendo um círculo de pequenas pedras, ateou a fogueira. Continuava a ser uma fogueira pequenina, apropriada a uma casa de bonecas. Mas era o seu fogo, o seu lume, que a tanto custo conseguira recuperar.
Aqueceu um pouco as mãos e esperou que se extinguisse, mas a luz manteve-se. Revelando recantos desconhecidos da gruta e humidade nas pedras tumulares.
Talvez amanhã saísse, à procura de galhos, ou mesmo de um ramo mais robusto, com que aumentar o seu pequeno milagre.
Ou talvez decidisse apenas ir em busca de melhor morada.
Para já, o fogo chamava-a. Pedia-lhe que não fosse.
E ela ficou.