Existe sempre um momento, pequenino, antes de adormecer... Os desabafos, as conversas imaginadas com um mero urso de peluche, ou direccionadas para um tecto vazio de vida e sentimentos. O típico momento que é só nosso, que ninguém pode roubar, porque desabafamos connosco mesmos... E há dias melhores que outros. Mas o que interessa é falar. Falar até não poder mais, deixar transbordar as entranhas dos pensamentos. Deixar as lágrimas cair. Lentas, quentes, molhadas. Carregando em si cada palavra amargurada, cada pequena infelicidade que transportamos.
Porque é a única forma de aguentar um novo dia, um novo jogo, no qual a única regra é não quebrar. Não em frente aos outros, sejam eles quem forem.
Porque quebrar significa fraqueza, e faz dos que se preocupam connosco infelizes, ainda que por breves minutos.
E o sorriso mantém-se. Sempre! Faça chuva ou sol, seja um dia bom ou mau. Porque o que interessa é sorrir.
É por isso que o pequeno momento nocturno é tão fulcral, tão crucial. É o momento em que o coração rasga, dilacera e queima, em que os soluços são incontroláveis e queremos ser embalados, como quando éramos crianças. Mas é uma dor silenciosa, individual, e a noite cura, mais uma vez, o coração despedaçado que, tendo desfeito a dor em lágrimas e blasfémias, acorda para a manhã, renovado.
A vida prossegue, e há dias bons, em que o coração aquece, e o nosso momento não precisa de tristeza porque nem tudo pode ser mau. Mas sabemos, bem dentro de nós, que podemos contar com a noite, a nossa fiel companheira de desabafos e desamores.
E é aí que nos sentimos em casa, protegidos, ouvidos, porque, até aí, ninguém se apercebeu...