terça-feira, 25 de outubro de 2016

A Dança da Mariposa


E o mundo girava, girava, girava, enquanto a menina se apoiava nas pontas dos pés descalços e rodopiava incessantemente, olhando o céu, como uma criança que descobre uma nova brincadeira. As cores misturavam-se, nos seus olhos, entre o azul brilhante, o branco e o verde, enquanto o jardim se fundia com as nuvens e o chilrear dos pássaros ecoava na sua cabeça.

E deixou-se cair. Sentiu a erva fofa que lhe amortecia a queda e fechou os olhos enquanto sentia o ribombar do coração contra as costelas e a montanha russa na sua cabeça.
Os pássaros continuavam o seu canto, despreocupados, enquanto, ao longe, o sino da igreja marcava a hora de almoço, e as pessoas começavam a recolher aos seus lares.

E ficou sozinha, deitada na relva, sentindo-se dentro de um sonho.
Abriu os olhos, para ver as borboletas que dançavam entre flores violeta e amarelas, o pequeno riacho que seguia o seu caminho por entre pedras redondas e macias, e o sol. Esse sol que brilhava alto e a aquecia, e que tentava igualar o calor que irradiava do seu coração. Mas era um sol de Outono, e quanto a calor, ela ganhava. Sentia-se quente, enérgica, como se cada pedaço do seu corpo estivesse envolto numa fina camada de luz, ou pó de fada, quem sabe? Acima de tudo sentia-se feliz.
As nuvens voavam acima da sua cabeça e tinham formas que ela inventava, e com as quais desenhava histórias encantadas no céu, sobre príncipes e sereias, deuses e cavaleiros, homens e mulheres...

E o ritmo do coração não abrandava. Mesmo agora que o mundo parara de rodar. Batia forte, e ela sentia a pulsação em cada centímetro do corpo, como se pudesse explodir a qualquer momento e transformar-se em mil pedaços de luz estilhaçada.
Levantou-se e caminhou até ao riacho, onde molhou os pés e sentiu a corrente passar-lhe por entre os dedos. E ficou tão quieta, a absorver a magia de tudo aquilo, que até os pequenos peixes curiosos vieram fazer-lhe cócegas mordiscando-lhe a pele nua.

E as gotas começaram a cair. Suaves, tímidas, pequenas. Compondo a música da chuva que explodia de cor onde os raios de sol tocavam. E a música foi aumentando, crescendo e a menina fugiu-lhe.
Sentindo a roupa molhada colada à pele e as pedras da calçada sob os pés descalços, enquanto caminhava pelas ruas, agora desertas, da vila, sorriu.

E certificando-se que não estava ninguém a espreitar às janelas, ou nas arcadas das portas,
saltou, rodopiou e dançou todo o caminho até casa.

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Muros e Terramotos

"Era uma vez...". São tantas as histórias que começam assim que é difícil não lhes perder a conta.
A pergunta que coloco é: mas quando?
"Uma vez" há cinco minutos? "Uma vez" no século XVI? "Uma vez" num sonho?
E "era uma vez" quem? Ou o quê?

Era uma vez um sentimento, pequeno, que morava num coração despedaçado. Estava assustado e ainda não recuperara do terramoto que tinha desabado a sua casa. Tinha estado inconsciente por dois meses, abandonado à sua sorte, sem saber se recuperaria, se abriria os olhos novamente.
Mas ali estava, magoado, com nódoas negras e arranhões, amputado. Nada o tinha preparado para aquela catástrofe súbita, não tinham existido abalos prévios que o avisassem que o chão estava prestes a tremer como nunca.
Lembrou-se de uma outra vez, há muito tempo, em que algo semelhante tinha acontecido. Dessa vez tinha havido avisos, abalos. Uns mais fortes, outros mais fracos, mas tinham-lhe dado tempo para se munir das ferramentas de construção que sabia que ia necessitar de seguida. E quando o tremor de terra finalmente surgira, tinha sido muito menor do que antecipara. Umas pedras fora do sítio, um muro que caíra, nada que não fosse fácil de emendar, com um pouco de tempo. E tempo...bem, disso ele tinha!
Há três anos que os abalos tinham parado, ao ponto de se sentir seguro na sua casa novamente. Confortável, até. Tinha aproveitado cada momento, saltado quando estava alegre, até tambores tocou bem alto em vários momentos para que se pudesse ouvir o repercutir constante da sua felicidade em toda a terra.
Mas nada, nem ninguém o preparara para aquele momento. Olhando em volta via as ruínas da sua casa, outrora bela. O telhado havia desmoronado por completo, não oferecendo agora qualquer protecção contra chuvas e tempestades. As paredes tinham sido arrancadas quase até à raíz, deixando as pedras basilares a descoberto, cheias de marcas e irregulares. A única coisa que parecia ter sobrevivido eram os muros que, se fosse possível, pareciam até mais altos do que até então. Como se todas as pedras que faziam parte da casa tivessem saltado para reforçar as muralhas circundantes.
Tirou um momento para olhar para si. Não parecia o mesmo. Tinha cortes fundos e ossos partidos, tinha nódoas negras e estava com muito mau aspecto.
Tentou levantar-se, mas fracassou. 
Seria prudente continuar a viver ali? Mas se não ali, onde?
Ouvia vozes ao longe. Pareceu-lhe ouvir chamar o seu nome. Uma das vozes parecia mais perto que as outras e procurava-o.


Permaneceu em silêncio. Sabia que teria de tentar levantar-se, eventualmente, quer fosse para ficar ou ir embora. Mas, por agora, fechava os olhos. Talvez precisasse apenas de descansar, talvez precisasse de ter a certeza que a voz não o chamava em vão.
Encostou-se ao muro, sentindo-se protegido. E embalou-se, até adormecer.

E dessa vez foi assim.




quarta-feira, 29 de junho de 2016

Inferno

Reparei que escrevo quando sinto. Quando há um turbilhão de emoções dentro de mim que me afoga, quando, na verdade, o que quero dizer não pode ser expresso em palavras.
Não sei escrever senão sobre isso. Em prosa, poesia, metáforas ou não. Tudo o que escrevo, sinto.
E sinto tanto que me sento na beira de um precipício e atiro as palavras como se fossem a dor e a mágoa que me corroem, me levam a olhar o Inferno nos olhos e abraçá-lo com a força que não sei que tenho.
É desesperante, é incapacitante. Não sinto fome, não sinto sede, não durmo, não tenho forças. E tenho frio, tanto frio.
E sinto raiva e desilusão, e uma dor indescritível, excruciante que torce o coração e o esmaga como uma tempestade constante e furiosa. E sinto as lágrimas que não param, quentes, molhadas, cheias de um sofrimento que nunca conseguirei exteriorizar.
E oiço as palavras ao ouvido. Os gritos longínquos que me apelam à força, que me asseguram que tudo passará...com tempo. E sinto o tempo apertar. À minha volta, como se não quisesse deixar-me passar através dele, armadilhando-me entre momentos e recordações que serão, para sempre, lembrança de egoísmo, cobardia e solidão.
Nada faz sentido. E no entanto nunca nada foi tão claro. A mentira, o desamor, a leviandade de quem me diz saber não ser algo que sempre fingiu ter sido.
Cai a máscara, o pano abre-se. E a multidão ri.
Sinto-me usada, deserta, esfaqueada. Sinto a vontade de destruir quem guiou, durante anos, esse Inferno até mim. Grito interiormente e convenço-me, sem ter dúvidas, de que nunca foi real.
Todos os planos, as esperanças, os sorrisos e crenças, atiro-os bem para o fundo. Onde nunca serão recuperados e fecho bem a arca onde os manterei por toda a eternidade.
A porta fecha-se. O sonho acaba. E o que pensei ter sido, desmorona.se na certeza de que nunca foi.
E as palavras saem da ponta dos dedos.Caem no infinito, no esquecimento. Fluídas, incapazes de expressar o todo da emoção.