
E o mundo girava, girava, girava, enquanto a menina se apoiava nas pontas dos pés descalços e rodopiava incessantemente, olhando o céu, como uma criança que descobre uma nova brincadeira. As cores misturavam-se, nos seus olhos, entre o azul brilhante, o branco e o verde, enquanto o jardim se fundia com as nuvens e o chilrear dos pássaros ecoava na sua cabeça.
E deixou-se cair. Sentiu a erva fofa que lhe amortecia a queda e fechou os olhos enquanto sentia o ribombar do coração contra as costelas e a montanha russa na sua cabeça.
Os pássaros continuavam o seu canto, despreocupados, enquanto, ao longe, o sino da igreja marcava a hora de almoço, e as pessoas começavam a recolher aos seus lares.
E ficou sozinha, deitada na relva, sentindo-se dentro de um sonho.
Abriu os olhos, para ver as borboletas que dançavam entre flores violeta e amarelas, o pequeno riacho que seguia o seu caminho por entre pedras redondas e macias, e o sol. Esse sol que brilhava alto e a aquecia, e que tentava igualar o calor que irradiava do seu coração. Mas era um sol de Outono, e quanto a calor, ela ganhava. Sentia-se quente, enérgica, como se cada pedaço do seu corpo estivesse envolto numa fina camada de luz, ou pó de fada, quem sabe? Acima de tudo sentia-se feliz.
As nuvens voavam acima da sua cabeça e tinham formas que ela inventava, e com as quais desenhava histórias encantadas no céu, sobre príncipes e sereias, deuses e cavaleiros, homens e mulheres...
E o ritmo do coração não abrandava. Mesmo agora que o mundo parara de rodar. Batia forte, e ela sentia a pulsação em cada centímetro do corpo, como se pudesse explodir a qualquer momento e transformar-se em mil pedaços de luz estilhaçada.
Levantou-se e caminhou até ao riacho, onde molhou os pés e sentiu a corrente passar-lhe por entre os dedos. E ficou tão quieta, a absorver a magia de tudo aquilo, que até os pequenos peixes curiosos vieram fazer-lhe cócegas mordiscando-lhe a pele nua.
E as gotas começaram a cair. Suaves, tímidas, pequenas. Compondo a música da chuva que explodia de cor onde os raios de sol tocavam. E a música foi aumentando, crescendo e a menina fugiu-lhe.
Sentindo a roupa molhada colada à pele e as pedras da calçada sob os pés descalços, enquanto caminhava pelas ruas, agora desertas, da vila, sorriu.
E certificando-se que não estava ninguém a espreitar às janelas, ou nas arcadas das portas,
saltou, rodopiou e dançou todo o caminho até casa.
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