terça-feira, 24 de outubro de 2017

Escarpas e Quedas

Olhou para cima. Ao longe conseguia ver a rocha escarpada de onde tinha caído. Uma das sapatilhas tinha ficado para trás e a camisola estava rasgada, coberta de sangue e marcas de arranhões, onde a pedra tinha perfurado a pele. 
 

Lembrava-se do momento em que caíra.
A pedra em que se apoiara para subir estava solta, e aquele que julgara ser o melhor troço de escalada falhara-lhe debaixo do corpo. Pedregulhos de todos os tamanhos tinham resvalado e aterrado em cima dela como balas. Ainda conseguia sentir o impacto do chão nas costas, a dor de cair de uma altura tão elevada, e os dias que demorara até conseguir, de novo, ganhar forças para continuar. Tivera de mancar um pouco, as pernas não obedeciam e doíam a cada passo lento e receoso. Atirara o outro sapato para longe e andava descalça, sentindo a terra debaixo dos pés, entranhando-se nas feridas pouco a pouco, mas já não se importava.
Andara curvada como se a idade sobre ela pesasse e pouco a pouco encontrou outra zona convidativa a subir a escarpada montanha.
Ainda não tinha a certeza de querer tentar de novo. O corpo doía, as mãos haviam perdido as forças e a fé de que conseguiria algum dia subir a montanha tinha caído por terra.
Depressa se apercebeu que as rochas ali não eram estáveis e que as dores que ainda sentia no corpo não lhe permitiriam chegar longe por aquele caminho.
Mais cansada que desanimada, continuou o percurso no vale entre as escarpas rochosas e falésias de cinzento.
Caminhou por vários dias, vendo o seu sonho desvanecer-se diante de si.
 
Agora as dores eram nódoas negras, umas mais saradas que outras. Os arranhões profundos deixaram cicatrizes que, sabia, lhe pertenceriam para sempre. Continuava a sentir cada marca no seu corpo, cada vergastada cruelmente infligida por se ter agarrado a uma pedra instável.
 
Olhou mais uma vez a rocha. E reparou num pequeno degrau. Convidativo. Uma formação rochosa inaudita, estranha,  que lhe permitiria impulsionar-se para cima. Não conseguia perceber a estabilidade da  pedra naquela zona. Era um tipo de rocha diferente do habitual. Parecia ter zonas muito boas para escalar e ao mesmo tempo zonas de rocha lisa de onde poderia cair se não fosse cuidadosa.
E ficou ali. A olhar para um caminho inesperado, pensando até que ponto arriscaria cair outra vez, sem saber a altura a que aquele pedaço de Terra lhe permitiria escalar. E se caísse de mais alto? Sobreviveria? Tinha as ferramentas para subir, era certo, e sabia que se chegasse a meio do caminho e a escarpa fosse firme não desceria para encontrar melhor alternativa. Ficaria concentrada em chegar mais alto, apaixonada por chegar mais longe.
 
Mas e se não fosse? E se perdesse mais tempo da sua viagem a escalar uma rocha instável que a qualquer momento desabaria?
E assim ficou. Olhava a montanha e o seu novo caminho. E pensava ouvir o vento a convidá-la a continuar, a tentar, a arriscar.

Sentou-se. Amanhã decidiria.

sexta-feira, 13 de janeiro de 2017

Passos de Dança

Quando ele estendeu a mão, convidando para dançar, ela hesitou. Não era versada na arte da dança, e da última vez que arriscara dançar livremente com alguém, tinha chegado a casa com dores horríveis nos pés, que a tinham incapacitado durante dias. 
Disse-lhe: "eu não danço". Ao que ele sorriu, divertido, e perguntou porquê. Ela ponderou a sua resposta e decidiu responder honestamente, humildemente. 
Ele olhava-a fixamente, enquanto ela se atrapalhava com a explicação e lhe dizia que da última vez que dançara, fora pisada com demasiada força. E pensava no quão bonita ela estava, no seu vestido verde, curto e feminino.
Surpreendeu-a quando, após a sua explicação ele a puxou de encontro a si e sussurrou "eu também tenho nódoas negras", num tom de voz brincalhão e doce. Pegou novamente na mão dela e beijou-a ao de leve, como o pousar de uma borboleta, sentindo-a tremer. 
"Confias em mim?" perguntou e ela, ainda hesitante, caminhou com ele até à pista de dança.
E sentiu a sala fechar-se à sua volta, como se apenas os dois existissem no mundo. Como se a noite fosse deles, e o tempo parasse para se curvar diante da sua troca de olhares.
E, quando ele colocou a mão na sua cintura e a conduziu num ritmo lento e compassado, ela sentiu-se flutuar. Aos poucos, sentiu os seus pés a acompanharem os dele, cada vez mais próximos, cada vez mais fundidos um no outro. 
Ele sentia-a quente junto a si, enquanto pensava que, também ele, tinha dificuldades em dançar. Os seus passos eram bastante rígidos, planeados e, por vezes, tornavam a dança um pouco estranha, como se o seu corpo não lhe pertencesse. Sentia-a descontrair junto a si. E enquanto as suas mãos a apertavam e puxavam para perto, os seus pés tornavam-se mais mecânicos, com medo que um deles pisasse o outro, comprovando a teoria de que não eram um bom par.
Ela olhou-o nos olhos e sentiu os seus medos, as suas inseguranças. O medo de ter dado a entender ser melhor dançarino do que era, a vontade de aprender, com ela, a dançar melhor. E beijou-o. Partilhando os medos que eram também os seus, embora os escondesse em camadas de confiança e carinho. Deixou o tempo parar, o mundo rodar à sua volta. Naquele momento, naquela sala, nada mais importava do que as mãos dele a segurá-la e os lábios dele tocando os dela, como um porto seguro onde ela se podia aninhar.



E, no canto da sala, sentada a observar, estava a anciã que sorria. Lembrava-se da altura em que, também ela fora jovem, cheia de medos, cheia de sonhos sem se atrever a enunciá-los, não fossem eles fugir, galopando nas suas palavras. E observava os passos tímidos, dados a medo, daquela dança cuidadosa entre duas pessoas com medo de se magoar, de cair ou de dar o passo errado e pisar o outro.
Riu-se, interiormente, sabendo que, na dança, a descontracção vinha com o tempo, com prática, com alguma dor, inevitavelmente, e com a segurança da pessoa com quem se arrisca dançar.
E olhando para aquele com quem as suas mãos, ainda hoje, tremiam e se entrelaçavam, relembrou os seus próprios passos de dança, as vezes que caiu, as vezes em que foi pisada, e o momento em que finalmente tinha compreendido que para dançar só eram precisas três coisas: sonhos, amor e um bom par.