segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Metaforizando


A bailarina rodava e rodava, girava sem parar ao som de uma melodia terrivelmente bela e repetitiva. Mas não se cansava e, em frente a um pequeno espelho redondo, presa a esse chão que era a caixa de música, rodopiava uma infinidade de vezes, observada apenas pelos olhos da criança que, atentamente, a seguiam.
Era bela, pequena, frágil e persistente. Era um "qualquer coisa" sem alma, num comum mundo humano. Apesar de tudo, a criança conhecia-a. Imaginara já mil histórias de amor e perda, de aventura e aprisionamento em que, inevitavelmente, a pequena bailarina assumia um papel preponderante.
E assim passava parte das suas tardes, imaginando, deixando-se divagar entre mundos e fantasias alheias, criando a sua própria arte e aprisionando-a em cada canto disponível da mente. Quando aprendesse a escrever bem, como a gente crescida, passaria para o papel cada conto imaginado entre tardes de chuva e arco-íris.
E, bem no fundo sabia que era tudo um ciclo, e que era por isso que a bailarina insistia em girar constantemente. Um ciclo de vida e morte, um ciclo de dia e noite, de felicidade e tristeza. Tudo chegaria a seu tempo e tudo partiria no momento certo. Viveria em função de ciclos, e por eles morreria.

E, então, observou a boneca que, sem corda, começava a desacelerar na sua dança giratória. Sabia que estava no fim do ciclo, que devia deixá-la parar e ir descansar, mas deu um pouco mais de corda na caixa de música, prolongando mais um pouco aquilo que, sabia, tinha de parar.

segunda-feira, 23 de março de 2009

Desabafos

Há momentos especiais, sitios diferentes, pessoas inesqueciveis. Há confissões por meias palavras, gestos de puro amor, e olhares cúmplices e divertidos. Horas de brincadeira, personalidades estranhas com as complicações que acarretam.
A verdade, é que existe de tudo um pouco. Amor de criança, o sentimento mais puro. Amizade sincera, o sentimento mais nobre. Amor verdadeiro, o mais inocente...
A vida mostra-se em todo o seu explendor a cada sorriso, cada palavra, cada horizonte em que fixamos o olhar.
Tudo é efémero, e a vida é curta. Cada grão de felicidade que me for possível armazenar, será útil num amanhã próximo. Cada pedaço de ensinamentos, tristezas e desejos, guardado com cuidado, pois a sua fragilidade inerente, faz-nos correr grandes riscos. Cada laivo de doçura, cada pensamento segredado, deve ser preservado em redomas indefiniveis aos olhos do ser humano.
Entre as lutas da vida comum e a magia de mundos paralelos, existe um limbo. É aí que escrevo, numa linha ténue entre a realidade e o sonho. Entre aquilo que posso ou devo almejar. Porque nem sempre se tem o que se quer, ou se quer o que se tem.
Mas há coisas mais importantes. A segurança, a estabilidade. A certeza de uma presença constante e duradoura, que nos levará a um mundo diferente, do qual aprenderemos a gostar. Porque a vida não é perfeita e é preciso aprender a contornar as imperfeições. Cada volta, cada obstáculo. É preciso moldarmo-nos a cada situação, ainda que tenhamos que perder pedaços de nós, pedaços de amor. Porque sem essa capacidade, apenas o isolamento seria optável, e uma vida em solidão levaria à infelicidade.
É, no entanto, com a vida, com as barreiras, com a moldagem intrínseca, que aprendemos a recolher cada caco de felicidade disperso numa outra dimensão, cada momento que nos possa conduzir a um pico de alegria extrema, e guardar esse pedaço, para poder, mais tarde, oferecê-lo.
Assim, o mundo gira em torno de cada um. O meu mundo, não é mundo. É antes uma mistura de realidades, entre o "quero" e o "posso", juntando, por vezes, o "devo" e o "amo". Uma confusão de verbos que jamais será descodificada.
Para os que me leêm e me não entendem, digo-vos apenas: têm sorte.