segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

Metaforizando


A bailarina rodava e rodava, girava sem parar ao som de uma melodia terrivelmente bela e repetitiva. Mas não se cansava e, em frente a um pequeno espelho redondo, presa a esse chão que era a caixa de música, rodopiava uma infinidade de vezes, observada apenas pelos olhos da criança que, atentamente, a seguiam.
Era bela, pequena, frágil e persistente. Era um "qualquer coisa" sem alma, num comum mundo humano. Apesar de tudo, a criança conhecia-a. Imaginara já mil histórias de amor e perda, de aventura e aprisionamento em que, inevitavelmente, a pequena bailarina assumia um papel preponderante.
E assim passava parte das suas tardes, imaginando, deixando-se divagar entre mundos e fantasias alheias, criando a sua própria arte e aprisionando-a em cada canto disponível da mente. Quando aprendesse a escrever bem, como a gente crescida, passaria para o papel cada conto imaginado entre tardes de chuva e arco-íris.
E, bem no fundo sabia que era tudo um ciclo, e que era por isso que a bailarina insistia em girar constantemente. Um ciclo de vida e morte, um ciclo de dia e noite, de felicidade e tristeza. Tudo chegaria a seu tempo e tudo partiria no momento certo. Viveria em função de ciclos, e por eles morreria.

E, então, observou a boneca que, sem corda, começava a desacelerar na sua dança giratória. Sabia que estava no fim do ciclo, que devia deixá-la parar e ir descansar, mas deu um pouco mais de corda na caixa de música, prolongando mais um pouco aquilo que, sabia, tinha de parar.

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