"Era uma vez...". São tantas as histórias que começam assim que é difícil não lhes perder a conta.
A pergunta que coloco é: mas quando?
"Uma vez" há cinco minutos? "Uma vez" no século XVI? "Uma vez" num sonho?
E "era uma vez" quem? Ou o quê?
Era uma vez um sentimento, pequeno, que morava num coração despedaçado. Estava assustado e ainda não recuperara do terramoto que tinha desabado a sua casa. Tinha estado inconsciente por dois meses, abandonado à sua sorte, sem saber se recuperaria, se abriria os olhos novamente.
Mas ali estava, magoado, com nódoas negras e arranhões, amputado. Nada o tinha preparado para aquela catástrofe súbita, não tinham existido abalos prévios que o avisassem que o chão estava prestes a tremer como nunca.
Lembrou-se de uma outra vez, há muito tempo, em que algo semelhante tinha acontecido. Dessa vez tinha havido avisos, abalos. Uns mais fortes, outros mais fracos, mas tinham-lhe dado tempo para se munir das ferramentas de construção que sabia que ia necessitar de seguida. E quando o tremor de terra finalmente surgira, tinha sido muito menor do que antecipara. Umas pedras fora do sítio, um muro que caíra, nada que não fosse fácil de emendar, com um pouco de tempo. E tempo...bem, disso ele tinha!
Há três anos que os abalos tinham parado, ao ponto de se sentir seguro na sua casa novamente. Confortável, até. Tinha aproveitado cada momento, saltado quando estava alegre, até tambores tocou bem alto em vários momentos para que se pudesse ouvir o repercutir constante da sua felicidade em toda a terra.
Mas nada, nem ninguém o preparara para aquele momento. Olhando em volta via as ruínas da sua casa, outrora bela. O telhado havia desmoronado por completo, não oferecendo agora qualquer protecção contra chuvas e tempestades. As paredes tinham sido arrancadas quase até à raíz, deixando as pedras basilares a descoberto, cheias de marcas e irregulares. A única coisa que parecia ter sobrevivido eram os muros que, se fosse possível, pareciam até mais altos do que até então. Como se todas as pedras que faziam parte da casa tivessem saltado para reforçar as muralhas circundantes.
Tirou um momento para olhar para si. Não parecia o mesmo. Tinha cortes fundos e ossos partidos, tinha nódoas negras e estava com muito mau aspecto.
Tentou levantar-se, mas fracassou.
Seria prudente continuar a viver ali? Mas se não ali, onde?
Ouvia vozes ao longe. Pareceu-lhe ouvir chamar o seu nome. Uma das vozes parecia mais perto que as outras e procurava-o.
Permaneceu em silêncio. Sabia que teria de tentar levantar-se, eventualmente, quer fosse para ficar ou ir embora. Mas, por agora, fechava os olhos. Talvez precisasse apenas de descansar, talvez precisasse de ter a certeza que a voz não o chamava em vão.
Encostou-se ao muro, sentindo-se protegido. E embalou-se, até adormecer.
E dessa vez foi assim.
