Ela sorriu, encolheu os ombros e correu para junto do grupo que fazia fila para experimentar o conjunto de ferros, cordas e cores, nas quais todos os miúdos do recreio se baloiçavam e faziam poses, quais macacos ou ginastas treinados.
Olhou para a cicatriz na perna. Tinha levado pontos. A enfermeira dizia que ele tinha tido sorte, mas ele não sentia isso. Aquele ferro tinha caído na altura errada e ele magoara-se mesmo a sério.
Lembrou as lágrimas quentes que lhe escorreram pela cara, a dor lancinante e o pânico na cara da professora, enquanto tentava manter a voz calma e indicava que seria necessário levá-lo ao hospital.
O sangue tinha cavalgado pela perna, e manchado as meias azuis que vestira nesse dia. Tinha-se sentido fraco e impotente, como se a situação acontecesse longe de si. As mãos tremiam e sentia-se fraco.
Quando acordou novamente, naquele dia, estava num sítio com uma luz muito branca, e um senhor de bata branca dizia-lhe que tinha de ter mais cuidado nas suas brincadeiras, com um sorriso. Aquele senhor não sabia que a culpa não era dele. O ferro tinha caído, fugido debaixo do seu pé. Tinha feito aquelas tropelias mais de mil vezes, no recreio, e sempre se sentira seguro e confortável.
Por isso, não. Não ia voltar a arriscar magoar-se tanto outra vez! Os outros miúdos que fossem experimentar, trepar e dar a cambalhota no novo brinquedo, ele não se importava, pensou enquanto, com um pequeno galho fazia desenhos na areia do parque, sentado com a cabeça apoiada nos joelhos.
Sentiu-a chegar perto dele e sentar-se. Pegou noutro ramo, e adicionou pequenas cornucópias ao desenho dele.
Quando levantou a cabeça e a olhou, viu as suas faces rosadas, o cabelo desgrenhado, da brincadeira, os olhos brilhantes de felicidade e o sorriso resplandecente que ela lhe dirigia. Deixou escapar um meio sorriso.
Nos dias seguintes, ela juntava-se a ele em rabiscos arenosos e cautelosas viagens de escorrega ou baloiço. Esperava por ele à porta da sala de aula, mal a campainha tocava, anunciando a liberdade.
Ele sorria-lhe e corriam os dois para que não lhes roubassem o lugar.
Era sexta-feira e depois de baloiçarem a alturas estonteantes, ela estendeu-lhe a mão. Hesitante, ele pousou a sua mão na dela e ela puxou-o para a fila, agora mais pequena, do novo brinquedo do recreio. Os seus olhos abriram muito e a cor fugiu-lhe das faces. Não queria voltar a trepar e cair, não queria magoar-se outra vez.
Ela manteve a mão bem firme na dele, e sentia-o apertar os seus dedos com força, mas não se queixou.
Quando a espera chegou ao fim, ela puxou-o gentilmente, apesar do olhar fixo com que ele contemplava os ferros e cordas. Devagar, ele subiu atrás dela e a cada passo sentiu-se mais forte.Não sabia explicar a sensação. Não era adulto, e os adultos tinham muito mais jeito para explicar as coisas. Mas sentiu-se mais leve, mais corajoso.
No final do dia, voltara a estar pendurado de cabeça para baixo e a fazer as cambalhotas de que tanto gostava. Olhava para ela e via o seu sorriso, o triunfo, o olhar de superação.
E riam os dois, enquanto se desafiavam às posições mais estranhas e acrobacias mais perigosas.
A cicatriz manteve-se, lembrando-o de ter cuidado, de não se apoiar em ferros defeituosos ou instáveis. Mas a cada dia se notava menos, até ele eventualmente se esquecer de que a trazia, na maioria do tempo.
Mais tarde, viria a entender que cada cicatriz conta uma história. E que a pessoa em que nos tornamos, depende dessas histórias.
Mas isso são coisas de adultos.