Olhou para cima. Ao longe conseguia ver a rocha escarpada de onde tinha caído. Uma das sapatilhas tinha ficado para trás e a camisola estava rasgada, coberta de sangue e marcas de arranhões, onde a pedra tinha perfurado a pele.

Lembrava-se do momento em que caíra.
A pedra em que se apoiara para subir estava solta, e aquele que julgara ser o melhor troço de escalada falhara-lhe debaixo do corpo. Pedregulhos de todos os tamanhos tinham resvalado e aterrado em cima dela como balas. Ainda conseguia sentir o impacto do chão nas costas, a dor de cair de uma altura tão elevada, e os dias que demorara até conseguir, de novo, ganhar forças para continuar. Tivera de mancar um pouco, as pernas não obedeciam e doíam a cada passo lento e receoso. Atirara o outro sapato para longe e andava descalça, sentindo a terra debaixo dos pés, entranhando-se nas feridas pouco a pouco, mas já não se importava.
Andara curvada como se a idade sobre ela pesasse e pouco a pouco encontrou outra zona convidativa a subir a escarpada montanha.
Ainda não tinha a certeza de querer tentar de novo. O corpo doía, as mãos haviam perdido as forças e a fé de que conseguiria algum dia subir a montanha tinha caído por terra.
Depressa se apercebeu que as rochas ali não eram estáveis e que as dores que ainda sentia no corpo não lhe permitiriam chegar longe por aquele caminho.
Mais cansada que desanimada, continuou o percurso no vale entre as escarpas rochosas e falésias de cinzento.
Caminhou por vários dias, vendo o seu sonho desvanecer-se diante de si.
Agora as dores eram nódoas negras, umas mais saradas que outras. Os arranhões profundos deixaram cicatrizes que, sabia, lhe pertenceriam para sempre. Continuava a sentir cada marca no seu corpo, cada vergastada cruelmente infligida por se ter agarrado a uma pedra instável.
Olhou mais uma vez a rocha. E reparou num pequeno degrau. Convidativo. Uma formação rochosa inaudita, estranha, que lhe permitiria impulsionar-se para cima. Não conseguia perceber a estabilidade da pedra naquela zona. Era um tipo de rocha diferente do habitual. Parecia ter zonas muito boas para escalar e ao mesmo tempo zonas de rocha lisa de onde poderia cair se não fosse cuidadosa.
E ficou ali. A olhar para um caminho inesperado, pensando até que ponto arriscaria cair outra vez, sem saber a altura a que aquele pedaço de Terra lhe permitiria escalar. E se caísse de mais alto? Sobreviveria? Tinha as ferramentas para subir, era certo, e sabia que se chegasse a meio do caminho e a escarpa fosse firme não desceria para encontrar melhor alternativa. Ficaria concentrada em chegar mais alto, apaixonada por chegar mais longe.
Mas e se não fosse? E se perdesse mais tempo da sua viagem a escalar uma rocha instável que a qualquer momento desabaria?
E assim ficou. Olhava a montanha e o seu novo caminho. E pensava ouvir o vento a convidá-la a continuar, a tentar, a arriscar.
Sentou-se. Amanhã decidiria.