A Vida anda, devagar. Não tem pressa de chegar a lado nenhum, e caminha, pacientemente, junto ao Tempo, esse rapaz despreocupado. Por vezes o garoto acelera, correndo e gritando pela Vida, que segue no seu passo constante, sorrindo, mas rapidamente se cansa, e regressa para junto da sua amiga, que tantos sábios conselhos lhe dá. Outras vezes, pára no caminho para admirar as flores e os pequenos insectos, só voltando à realidade, quando a voz suave e sábia da Vida o chama: "Anda lá, não te deixes ficar que o caminho é longo."
E andam juntos, lado a lado. Por vezes conversam.
A Vida é feita de muita coisa, de pessoas, de momentos, de emoções. Tudo isso fascina o Tempo, que está na idade dos "porquês".
Essa sábia que caminha, é paciente, e explica ao jovem Tempo tudo aquilo que ele queira saber:
"Sou feita de experiência. De sentimento e palavras. Sou feita de uma matéria menos palpável que o próprio Sonho, meu irmão. Alimento-me daquilo que me dão, quer seja amor, amizade, julgamento ou mesmo traição. Compreendo as pessoas melhor do que elas julgam, e caminho com elas, zelando pelos seus espíritos.
Há muitos tipos de pessoas, Tempo. Há pessoas que se oferecem tão totalmente aos outros, que toda a sua existência é um hino ao amor incondicional, à entrega total e livre, há outras que julgam, ainda antes de terem a sabedoria que lhes permita julgar correctamente, outras que apenas julgam sem terem direitos para o fazer ou sequer motivos racionais. Há aquelas que agem emocionalmente, e que, depois de arrependidas, são suficientemente orgulhosas para não cederem. Essas pessoas vivem rodeadas de culpa, mesmo que não o saibam. Há pessoas frias, que a maioria julga não terem coração. Mas eu conheço cada um desses gélidos corações, e sei que eles se derretem, se soubermos qual a temperatura certa. Há pessoas que irradiam felicidade e deixam todos à sua volta alegres, e há os invejosos, aqueles que, bem dentro de si, querem ser um outro alguém. Cada pessoa é como é. Todas elas têm defeitos, todas têm qualidades únicas. Só tens de aprender a ver, não só com os olhos, mas com a emoção, com a razão. Há pessoas que odeiam as tuas correrias, e outras que não gostam quando páras para admirar as tuas flores. E há aquelas que simplesmente não te sentem ou ligam.
Tens de conhecê-las uma a uma, para saberes quem são. Porque são todas diferentes, e todas tão frágeis...
Há quem se esconda no egoísmo, ou numa força que finge ter. Há quem tenha medos, e não consiga dar-se aos outros. Os tímidos, os desinibidos, os contadores de histórias... Todos eles têm um papel neste grande ciclo que sou eu.
Por vezes separo uns e junto outros, por achar que nem sempre estão bem juntos, ou que ficariam melhor se o fizessem. Talvez haja tempos que chegam ao fim, e outros que se renovam. Sim, pequeno Tempo, tempos..."
Cada dia, cada história...
O Tempo corre e abranda conforme o seu coração o chama, e a Vida continua, num passo lento, controlado, destinada a encontrar o fim daquele caminho...



