domingo, 20 de maio de 2012

Guardar agulhas

Às vezes sinto que não sei o que sinto. 
Talvez não faça sentido, ou talvez seja apenas mais um daqueles lugares comuns. Não sei. A vida complica o que podia ser simples, dá voltas, torce e espreme, vira-nos de pernas para o ar e volta a rodopiar-nos como se mais não passássemos do que uma leve folha, cujo destino é decidido pelo vento.
Há apertos no coração, e vontades de desaparecer, há míriades de sentimentos que se misturam como se estivéssemos a bater um bolo, e dolorosas expectativas que caem, muitas vezes no vazio. Há confusões. Gigantescos turbilhões de pensamentos que duvidamos terem sequer alguma razão lógica e racional. Há também saltos de alegria, e momentos em que o peito transborda. Há momentos de lágrimas raivosas e curiosidade aguçada... No fim, o que resta são as dúvidas. Dúvidas imensas de como foi e de como poderia ter sido... Os "e se's?", "porquês" e os "será?" que atormentam cada noite, cada dia. Entranham-se na mente como agulhas, picam e aleijam durante uns dias. Por vezes soltam-se, e pensamos tê-las perdido no caminho, voltando aos dias, ditos normais, em que nos contentamos com o que temos. Mas voltam. Sempre mais finas e pontiagudas, com teorias e cenários mirabolantes que surgem na nossa cabeça sem pedir permissão, e que arrancam todas as certezas que possam restar, transformando-as em frágeis memórias do que costumava ser. E os "e se's?" vencem a corrida, e posicionam-se em locais de boa visibilidade, para que não passem despercebidos, para nos fazer pensar em tudo, todas as possibilidades... mesmo aquelas que sabemos improváveis, ou mesmo impossíveis. Dançam na nossa cara, rindo e fazendo pouco da pouca sanidade que nos resta.
E a felicidade vai e vem... vai e vem. Por meses e meses a fio, como o desenrolar intrincado de um novelo, acabado de sair das garras de um gato. E por mais que vá e venha, nem sempre é completa, cheia. Por vezes, é mirrada e cheia de perguntas, uma felicidade maltratada pela mente e coração, que pecam por quererem demais.
A música é, sem dúvida, um factor despoletante. Pela música se ama, pela música se chora e se passam os momentos mais tristes, e por ela passam as maiores alegrias. Cada palavra que vá de encontro ao que se sente é como um pequeno milagre, um saber que não se está sozinho nesta terrível demanda que é a vida. Um saber triste de que alguém, mesmo que involuntariamente, pensou nestas dúvidas, nestes "e se's?", "porquês" e "será?".
E o que fazemos é esperar. Esperar por algo, ou alguém que nos diga uma palavra, uma frase, que nos faça agir... Porque somos cobardes. Não agimos com base nos "e se's?", pois não? O que garante, a qualquer um de nós, estar a tomar a atitude certa? Não sabendo, fechamo-nos na nossa concha. Há muito a ganhar, mas também imenso a perder, caso estejamos errados. E não nos podemos dar a esse luxo. Por isso, vamos deixando a vida passar por nós, a rir-se, com as suas agulhas perfurantes, sabendo que o nosso destino está nas suas mãos, porque somos demasiado medrosos para o tomar nas nossas. É demasiada a responsabilidade e é tamanho o medo...
No fim do dia, tudo se resume ao mesmo de sempre. Desabafar para uma parede vazia, ou uma folha em branco, e esperar que, como que por magia, alguém tome a atitude primeiro, alguém arrisque. Esperar que a amiga guarde o segredo, mas secretamente desejar que o revele (só se no final o resultado for favorável, claro), para não termos de ser nós a fazê-lo, porque espetar agulhas em nós mesmos, pode ser ainda mais doloroso...