quarta-feira, 29 de junho de 2016

Inferno

Reparei que escrevo quando sinto. Quando há um turbilhão de emoções dentro de mim que me afoga, quando, na verdade, o que quero dizer não pode ser expresso em palavras.
Não sei escrever senão sobre isso. Em prosa, poesia, metáforas ou não. Tudo o que escrevo, sinto.
E sinto tanto que me sento na beira de um precipício e atiro as palavras como se fossem a dor e a mágoa que me corroem, me levam a olhar o Inferno nos olhos e abraçá-lo com a força que não sei que tenho.
É desesperante, é incapacitante. Não sinto fome, não sinto sede, não durmo, não tenho forças. E tenho frio, tanto frio.
E sinto raiva e desilusão, e uma dor indescritível, excruciante que torce o coração e o esmaga como uma tempestade constante e furiosa. E sinto as lágrimas que não param, quentes, molhadas, cheias de um sofrimento que nunca conseguirei exteriorizar.
E oiço as palavras ao ouvido. Os gritos longínquos que me apelam à força, que me asseguram que tudo passará...com tempo. E sinto o tempo apertar. À minha volta, como se não quisesse deixar-me passar através dele, armadilhando-me entre momentos e recordações que serão, para sempre, lembrança de egoísmo, cobardia e solidão.
Nada faz sentido. E no entanto nunca nada foi tão claro. A mentira, o desamor, a leviandade de quem me diz saber não ser algo que sempre fingiu ter sido.
Cai a máscara, o pano abre-se. E a multidão ri.
Sinto-me usada, deserta, esfaqueada. Sinto a vontade de destruir quem guiou, durante anos, esse Inferno até mim. Grito interiormente e convenço-me, sem ter dúvidas, de que nunca foi real.
Todos os planos, as esperanças, os sorrisos e crenças, atiro-os bem para o fundo. Onde nunca serão recuperados e fecho bem a arca onde os manterei por toda a eternidade.
A porta fecha-se. O sonho acaba. E o que pensei ter sido, desmorona.se na certeza de que nunca foi.
E as palavras saem da ponta dos dedos.Caem no infinito, no esquecimento. Fluídas, incapazes de expressar o todo da emoção.



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