Os acordes soam jocosos, saltitantes. A voz é desafiante, profunda, grave. Uma voz como nenhuma outra.
É como se todos os neurónios conspirassem numa dança complicada. Vagueiam pela mente ao som da batida, sempre igual, sempre ritmada ao compasso do coração.
E tenta-se de tudo. Tudo para tirar esta música tão bela, tão triste, das profundezas da mente. Ouvem-se álbuns inteiros de outros artistas, pop, jazz, indie, clássica, rock, tudo o que possa distrair as pérfidas ligações nervosas. Sai-se com amigos, próximos ou não, distrai-se a mente com verdadeiras inutilidades, com trabalho, com desporto. Talvez correr seja uma opção, suar essa repetição infinita por todos os poros.
Sentimos a calma, a certeza de que, desta vez, conseguimos. É desta que a mente está vazia, branca.
E os acordes começam novamente. Começam devagar, como que a dizer um olá a medo, pedindo autorização para entrar, e ignorando-a logo de seguida, num crescendo intenso, desesperado, alucinado! Como se aquela fosse a única música que nos permitirá ouvir, para o resto da vida.
Ah, mas a voz! A voz parece tão distante. Não discernimos bem os sons, que chegam como uma amálgama de meias-palavras segredadas ao coração. É impossível entender o que diz essa voz aveludada, doce...
Dizem que para que uma música saia da cabeça, é preciso que a mente chegue aos acordes finais, que termine, que nos dê essa sensação de resolução, de entendimento.
Mas quanto mais a música toca, mais parece não ter fim, ou sequer início.
As notas repetem-se, confundem-se, entrelaçam-se numa orgia de sons que explode todos os dias, a toda a hora, no lóbulo temporal, e desconcentra.
Oh, mas é a música mais bonita! É distante, porém doce. É acelerada, mas de compasso lento. É diferente de tudo o que já foi ouvido, é uma dança de cores amarelas e azuis que que se agarram e soltam, num vaivém de emoção.
Agarra-se a cada ponto do ser, arrepia.
Lembra beijos, como flores, plantados na parte de trás do pescoço, e mãos que acariciam e se juntam, estimulando cada célula da pele, enquanto o calor aflora e cora. Lembra dedos que entrelaçam cabelos e que agarram, para não deixar escapar, ternurentos, sôfregos...
E a imaginação parte à aventura, embalada pela repetida canção.
E a parte de mim que quer deixar de a ouvir, batalha, constantemente, com esse pedacinho do ser, que quer deixar-se inundar pela melodia, para sempre.
E ao abrir os olhos, chega o momento em que é necessário recordar:
É só música, é só música.

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