quinta-feira, 3 de maio de 2018

Borrachas e Esferográficas

Quando entrei para a escola primária, foi-me ensinado que devia escrever a lápis, e ter sempre uma borracha à mão, não fosse enganar-me e precisar de apagar. Fui-me habituando a este método, sem dúvida interessante, em que os meus erros, por muito crassos que fossem, podiam sempre ser eliminados, podiam sempre voltar atrás.
Foi assim durante todo o primeiro ano de aprendizagem. A professora dizia que era normal errarmos, fazermos asneiras ao escrever, visto que tínhamos pouca prática e ainda agora havíamos aprendido como formar palavras, quanto mais frases e textos elaborados. 
No final do ano, já conseguia ter mais certezas sobre a maioria das palavras mas, mesmo assim, tinha sempre a rede de segurança ali ao lado: a, agora não tão branca, borracha.

De repente, e sem aviso, a professora avisou que, nesse dia, faríamos uma cópia a caneta. Por isso, teríamos de ter o dobro do cuidado, para não nos enganarmos. Dar o nosso melhor e fazer as coisas devagar e reflectidamente. Ora, é óbvio que isto parece uma descrição excessiva, para o mero acto de passar da escrita a lápis para a tão conhecida esferográfica. No entanto, para a criança de sete anos que fui, pareceu algo de extrema importância e responsabilidade. Começara a escrever, pela primeira vez, algo que seria irreversível.

Claro que me enganei muitas vezes, mesmo assim, e apesar de poder riscar o meu erro e continuar, nunca ficava um texto tão bonito, tão cuidado, tão limpo.
Hoje, ao olhar para trás, penso no quão pouco importantes eram esses erros, comparados aos que cometo hoje em dia.
E quão difícil, ou mesmo impossível, é apagar medos, memórias, decisões...
Na vida real, o relógio não volta atrás. Não pára. E não há borracha gigante para me livrar das consequências.
Claro que sabemos que os erros cometidos nos ajudam a escrever e reescrever a história da melhor forma. Que ajudam a usar a palavra certa, a figura de estilo mais apropriada, melhoram a caligrafia. E que, talvez um dia, sejamos capazes de escrever pelo menos uma página sem riscos, ou gatafunhos, ou acrescentos de palavras que nos esquecemos, por momentos, de colocar.
Olhamos para a folha do lado, e ficamos aliviados, por ver que somos todos iguais no que toca à escrita das nossas peripécias. Todos nos enganamos, todos tentamos voltar atrás, e, eventualmente, todos percebemos que o melhor é riscar, aprender, e continuar a escrever.
E penso se não será um dos ensinamentos mais importantes da escola primária: que há coisas que não podemos apagar. E que, no texto da nossa vida, só podemos tentar riscar os erros cometidos. Esperar que não ocupem grande espaço nas folhas, e que quem, um dia, se resolver a lê-los, não se importe com estas sujidades, estas irregularidades na história contada.

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